A malandragem e o “jeitinho” brasileiro

terça-feira, 19 de maio de 2009

O que é o Brasil? é um ensaio antropológico escrito, em 2004, por Roberto da Matta para jovens. O professor os leva a pensar a identidade brasileira a partir dos aspectos mais populares e conhecidos da sociedade: a casa, a rua, as relações raciais, a comida, as mulheres, o carnaval, a malandragem, a religião. No livro, o objetivo de da Matta é de mostrar a seus leitores que a identidade de um povo se revela por meio de pequenas coisas e que essas são capazes de render muitas discussões.

Em O modo de navegação social: a malandragem, o jeitinho e “você sabe com quem está falando?, Roberto da Matta ressalta o jeitinho do brasileiro de se livrar, muitas vezes, de compromissos, de não cumprir normas. Ele cita três exemplos: Estados Unidos, França e Inglaterra, onde as regras ou são obedecidas ou não existem, porque eles acreditam que ao burlar regras, estão apenas abrindo caminho para a corrupção burocrática e ampliando a desconfiança no poder público. Nessas sociedades, a lei não é feita para explorar o cidadão ou como instrumento para corrigir a sociedade, mas para que ela funcione bem.

No Brasil, o cidadão é explorado, algumas pessoas têm maiores privilégios que outras, a justiça não vale igualmente para todos. As normas são vistas como o que vai tirar os prazeres e desmanchar projetos e iniciativas. O jeitinho brasileiro representa uma forma pacífica e legítima de resolver problemas, desobedecendo as regras e conciliando todos os interesses e o malandro é o profissional desse jeitinho e da arte de sobreviver nas situações mais difíceis.

Enquanto que o sabe com quem está falando? tem um estilo mais conflituoso e um tanto direto de resolver os problemas, onde a autoridade é reafirmada. É claro que muitas vezes a autoridade apresentada pelos brasileiros nessas horas não signifique nada, ou seja, é incapaz de resolver a questão. O grande problema do brasileiro é querer se valer de um poder que ele não possui e forçar a “barra” para obter o que quer.

Pode-se afirmar que o malandro é um personagem nacional e muito conhecido no país, mas não é apenas uma revelação de cinismo e gosto pelo grosseiro e desonesto, como uma forma original e brasileira de viver. Muitas vezes, o brasileiro se cansa de como a sociedade é governada, de como a justiça não é igual para todos. Não tendo bons exemplos, o que o faria ser honesto, justo, se não o tratam com o devido respeito? Trabalho explorado, salário baixo, tratado como animal por policiais.

A malandragem do brasileiro não se justifica, mas tudo isso é uma questão de como a sociedade é conduzida. As regras existem como forma de coerção e não para manter o equilíbrio. A partir do momento em que um cidadão desobedece as regras e não é punido corretamente, os outros não veem motivo para não fazer o mesmo se isso for lhes trazer benefícios como: mais tempo para lazer, não perder tempo em filas, não perder dinheiro com impostos. Tudo isso se baseia no processo histórico-cultural do Brasil.



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